A novela “Crónica de uma Morte Anunciada” de Gabriel García Marquez retrata a história de um casamento falhado que levou a morte de um homem, supostamente inocente, numa tentativa de reconquistar a honra da família. O autor faz críticas fortes e bem focalizadas a sociedade da altura de forma subtil mas bem perceptível. Marquez, foca em um aspeto fundamental- os papel da mulher na sociedade- que abrange e toca em vários outros aspetos das tradições e culturas da altura em questão.
O papel da mulher na sociedade Colombiana da altura era similar ao de outras partes do mundo, visto que a história acontece no início de século XX. A mulher desta sociedade é confinada a trabalhos domésticos e as suas opiniões e sentimentos são tratadas com desprezo. A mãe de Ángela Vicário é a representação da mulher da sociedade e durante uma caracterização feita pelo narrador sobre a família Vicário, o leitor apercebesse de como as coisas realmente eram para as mulheres. Quando o narrador de diz que “Puríssima de Carmen, a mãe, tinha sido professora primária antes de casar para sempre” (p. 31) o narrador está implicitamente a insinuar que apesar de se ter casado, de sua vontade ou não, Puríssima não tem mais nenhuma alternativa a não ser continuar no casamento para o resto da vida. Sendo assim, é claro de que as mulheres não tinham a escolha, nem o direito ou hipótese, de se divorciarem dos maridos. Para além disso, as mulheres eram “criadas para casar” (p. 32). A expectativa era que as mulheres fossem boas donas de casa que soubessem arrumar e limpar e serem, acima de tudo, submissas e dependentes dos maridos assim que saíssem da casa dos pais porque, na realidade, “foram criadas para sofrer” (p. 32) como dizia sua própria mãe. As filhas de Carmen “sabiam bordar com bastidor, coser à maquina, fazer renda de bilros, lavar e engomar, fazer flores artificiais e doces de fantasia, e redigir participações” (p. 32). Todas estas habilidades foram ensinadas expressamente as meninas da família deixando de parte os rapazes. Os homens foram simplesmente “criados para para serem homens” (p. 32), neste contexto, era esperado que arranjassem uma mulher, tivessem filhos e que fossem os encarregados do sustento da família após o casamento. Além de serem educadas someone com o propósito de serem boa donas de casa, as mulheres da altura era viviam com uma constante pressão social no que toca aquilo que delas é esperado.
Na altura em que decorre a história existia a expectativa de que as mulheres sejam virgens, e deste modo, preservando a sua inocência para depois de consagrado o matrimónio. O grande dilema da novela começou na primeira noite depois do casamento de Ángela Vicário e Bayardo San Román porque Ángela já não era virgem no dia do seu casamento. Este facto abriu o caminho para o termino do casamento entre os dois e a devolução de Ángela aos seus familiares por Bayardo que a “empurrou suavemente… para dentro de casa, sem dizer palavra” (p. 45). A perda da virgindade de Angela antes do casamento causou a perda de honra que se inseriu na família após o descobrimento dos factos. A “legítima defesa da honra” (p. 47), levou os gémeos Vicário a assassinar Santiago Nasar, condenado por Angela como o homem que se envolveu com ela. Apesar de haver tantos problemas a volta da virgindade de Ángela não há qualquer preocupação em termos da virgindade de Bayardo San Román. Isto torna a mensagem de desigualdade social, onde as mulheres estão em desvantagem, ainda mais clara. Não há discussão possível no que toca a inferioridade da mulher nesta sociedade.
Apesar de contar uma história interessante, Marquez faz também uma crítica social bem profunda sobre os papéis sociais de cada sexo na altura tornando a leitura ainda mais cativante e apelativa a emoção do leitor, visto que leva-os a pensar e refletir naquilo que acabaram de ler, visto que, feliz ou infelizmente, existem muitas semelhanças entre a sociedade da altura da história e da sociedade atual.