Querido Diário,
Hoje marca o início do fim da minha vida. Hoje aconteceu aquilo que era o meu maior medo. Torvald despediu Krogstad do banco e agora o meu segredo está a solta. Já não há regresso. Tenho apenas 31 horas de vida. O que devo fazer?
Vou viver hoje como se fosse o último dia da minha vida. Vou reviver todos os momentos que passei com Torvald e proporcionar um dia feliz para todos incluindo as crianças porque, no final, os mais prejudicados por isto tudo são eles. Como fui capaz de fazer tal coisa? Como fui tão ingênua ao ponto de cometer um erro tão crasso que acabou com a minha família?
Como será amanhã? Será que me vou divertir? Não consigo parar de pensar no que aconteceu, no que vai acontecer, no que já aconteceu. Torvald nunca me irá perdoar. Nem ele vai conseguir aproveitar a última noite que vamos ter juntos. Estive a espera deste baile durante tanto tempo e agora é disto que me resta? Uma festa sem prazer, uma dança sem desejo e um relacionamento em vias de extinção. Como irei de explicar isto aos meus filhos? O que irá a sociedade pensar de mim? Eu não me posso tornar no Krogstad, não, não, não! Os meus filhos podem crescer num lado envenenado como o dele, nem se tornar delinquentes por conta das minhas ações. Que péssima mãe que fui!
Mas, será que os motivos que me levaram a tomar tais decisões não contam para nada?Certamente que salvar a vida do meu marido não é um crime condenável. Eu apensa fi-lo para o bem da minha família. Será assim tão mau? Ai que sufoco, que mais profunda tristeza e arrependimento.
Nada mais me apetece a não ser trancar-me no quarto enrolada nos meus lençóis em forma de casulo, talvez assim fique segura deste avalanche de sentimentos que vem contra mim.