Os autores quando escrevem uma obra, quer seja peça de teatro ou novela, têm uma mensagem previamente estabelecida, com um propósito, até certo ponto, definido. No caso de A Casa da Boneca, Henrik Ibsen tinha a intenção de fazer uma crítica social à maneira de viver na altura em que o escreveu. Nesta era havia uma desigualdade social institucionalizada e patrocinada pelos próprios integrantes da sociedade, independentemente do género, visto que as mulheres se submetiam a tais tratamentos sem questionar nem desafiar as normas da sociedade em que vivam, tal como a total dependência dos maridos, visível quando Helmer diz à Nora que “arranjas sempre maneira de eu te dar dinheiro” (p. 15). Sendo os membros mais oprimidos nesta situação, era de se esperar que alguma coisa fosse feita para inverter o quadro. Partindo do princípio que nada foi feito pelas mesmas, Ibsen tomou a liberdade, usando a sua vantagem de homem, para expandir a recessão da mensagem e começar um movimento em prol da libertação das mulheres através da literatura. Na altura, a mensagem da peça de teatro que almejava mostrar o descontentamento do autor com a sua realidade, foi recebida de forma negativa, como uma afronta de Ibsen para a sociedade no seu todo. Isto deve-se a maneira como as pessoas se sentiam vivendo deste modo. Os maiores críticos, sem dúvida, foram os homens porque a crítica era direcionada a eles, em prol da igualdade de géneros. Mas a mensagem foi recebida e a sua voz foi ouvida, pelo menos por alguns, não só pelos que partilhavam a mesma opinião previamente mas também os que se reviram nas suas perspetivas.
Com o passar do tempo as intenções do autor permanecem, mas devido a mudanças nas ideologias dos leitores há uma mudança na interpretação e no impacto que a obra tem no público. Em tempos recentes a obra de Henrik Ibsen pode ser usada como uma forma de análise e base para uma comparação entre os tempos diferentes. A peça leva-nos a pensar até que ponto as coisas realmente mudaram na sociedade. Baseado na interpretação do livro e do entendimento do leitor é possível, a partir daquilo que se encontra presente no texto, fazer uma comparação de vários aspetos da sociedade. Mesmo nos tempos de hoje, há uma desigualdade entre as classes sociais superior àquilo que é desejável. Tal como na A Casa da Boneca há uma discrepância significante no que toca as classes sociais, especialmente na interação entre Nora e Mrs. Linde. Nora é uma esbanjadora, que pouco faz para ter algum sustento e depende totalmente do marido financeiramente, ao contrario de Mrs. Linde que mesmo “sem ninguém para trabalhar” é obrigada a “procurar qualquer sustento” (p. 23) para manter a sua família. Isto mostra o verdadeiro problema do sistema em que vivemos hoje em dia, que não é um problema de agora. A classes mais baixas são obrigadas a trabalhar mais horas, em mais empregos, e com um salário mais baixo, vendo assim as possibilidades de evoluirem na vida diminuirem a cada ano que passa. Ao contrário das classes mais altas que, muitas vezes, pouco fazem e que vivem da herança deixada por familiares e entregam-se ao comodismo. De uma forma mais sintetizada, o esforço das pessoas da camada mais baixa da sociedade não é devidamente recompensada. Outro problema que a peça nos leva a refletir é o casamento. Dentro deste tópico existem vários problemas, começando pela desigualdade e tocando em outros aspetos tal como o arrasto do casamento para manter as aparências apesar de já não existir amor entre o casal. No caso de Torvald e Nora era uma expetativa da sociedade que se permanecessem casados. Não era uma escolha, muito menos para a mulher, dissolver o casamento por várias razões tal como os filhos e opiniões externas. Nora, apesar de ter feito um sacrifício, cometendo até um crime, para salvar a vida do seu marido nunca conseguiu ser sincera e aberta com o seu parceiro por medo da verdade ser muito “humilhante e muito dolorosa para Torvald, com o seu machismo” (p. 27). Isto revela quase são as funções do homem e da mulher dentro do casamento, mostrando que a mulher deve limitar-se apenas as tarefas domesticas como cuidar dos filhos e manter a casa em boas condições, enquanto que o marido ganha o sustento para a família independentemente da sua presença no seio da família.